Texto extraído da revista Época de 09/07/07,de Adriano Silva, e ilustra uma dependência muito comum(infelizmente) atualmente.
Confissões de um dependente
Confesso: sou um dependente da aprovação alheia. Preciso me sentir amado para me sentir bem. E sofro crise de abstinência quando as pessoas ao redor são pouco carinhosas comigo. Sem o aplauso, sem o sorriso cúmplice, sem o ambiente acolhedor, eu não vivo. O mero tratamento neutro me soa sempre como agressão, como postura hostil. Tem muita gente como eu por aí. Talvez você mesmo seja um de nós. Ainda que não venhamos a nos organizar num AAA em que os dois últimos "as" signifiquem "aprovação alheia", uma coisa é certa: precisamos nos tratar.
Quem tem essa dependência se coloca refém do humor alheio. Se alguém é áspero com você, você se culpa e se responsabiliza por isso. Se a outra pessoa é rude, você se preocupa, olha desconfiado para a própria conduta, se desestabiliza emocionalmente. Os dependentes da aprovação alheia se tornam, com o tempo, seres frágeis. Patéticos até, em sua hipersensibilidade, em seu melindre cronico. Ao colocarem sua felicidade em mãos alheias, se tornam pessoas facilmente manipuláveis.
Ao definir sua tranquilidade em relação a elas mesmas a partir do olhar dos outros, abrem uma brecha enorme em sua auto-estima. Não falta no mundo gente que perceba essa porta aberta e a use para jogar com a carência de afeto. Trata-se dos predadores emocionais.
É preciso ter cuidado com eles. Gente que faz assédio afetivo uma afiada arma de competição, de ascensão social, de exercício de poder sobre o outro. Por isso admiro quem não dá a mínima para os outros. Quem nasceu blindado contra o poder da opinião alheia, do que possam pensar ou sentir ou dizer a seu respeito.
Pessoas assim se respeitam mais, se preservam mais. Resolvem suas inseguranças de outro modo, sem expor o traseiro nu na janela. Com isso, imagino, sofrem menos.
Essas pessoas sabem que no fundo estamos todos sozinhos neste mundo. E que a opinião que realmente conta sobre elas é a delas mesmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário